terça-feira, 6 de outubro de 2015

Vôo

Os dias estão diferentes. Correm a uma velocidade estonteante. Raramente nos é permitido parar. E olhar o que nos rodeia, quem se senta ao nosso lado na mesa do café, a nova música na rádio no meio do trânsito. E corremos porque temos pressa. E corremos porque temos algo a fazer. E corremos porque estamos em falta de algo. No fim do dia se der, respiramos. No fim do dia logo se vê se temos tempo de pensar no que hoje se viveu. Nunca temos. E o dia passa. E a semana avança, mudam os meses, as estações, muda-se a roupa fresca para o cachecol ao peito. Mudam-se os anos e os aniversários acrescentam-nos números. E o tempo voou. 
E eu que me agarro às memórias de forma a contrariar o voo aproveito o silêncio para respirar e guardar as nossas pequenas memórias na caixa empoeirada que chamo nossa. E guardo todos os beijos, todos os bons dias e boas noites, todos os abraços, todas as conversas em silêncio. E guardo cada gargalhada delas. Cada conquista. Cada aprendizagem. E de repente num dia como tantos outros, olho para ti e vejo. O tempo voou, tenho tanto para guardar. 
Não és o miúdo pelo qual me apaixonei. És o pai das minhas filhas. Sou mãe. E nós quase sem parar. És um homem, sou uma mulher. O tempo voou. Temos uma história. Já nos deixamos  de discutir em biquinhos de pés para não arriscar tudo. Dane-se, o tempo passou, e arrisca-se tudo com a certeza da certeza. Temos uma história. E continuamos a conversar até de manhã como se nos tivéssemos conhecido ontem.Temos uma história e damos gargalhadas a meio da noite mas já em surdina para não acordar as crianças. 

O tempo não pára. Os dias estão diferentes. Mas mesmo a uma velocidade estonteante tenho de tentar parar para guardar. Nos guardar.

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