segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Chuva

A casa vazia em silêncio. A chuva lá fora e um frio dentro dela. A solidão dilacerante de quem um dia já teve tanto. A falta de um sorriso, a falta de um abraço. Ela sozinha numa casa escura, fria, morta. O que a matava era o passado. A sensação de impunidade que o passado lhe imputava nos ombros. A falta de força para quebrar correntes, para berrar. No fundo perguntava-se para quem berraria. O silêncio numa casa vazia era tudo o que lhe restava. E a chuva lá fora. E um frio a crescer dentro dela. 
Era visitada por fantasmas. Dos dias bons, do que ela pensava serem dias maus. E o sorriso. Era sempre o sorriso que a tramava. A falta de conversar, do toque de outro alguém no seu próprio corpo. E berrava, aninhava-se agarrada à barriga num berro sem som. Numa dor alagada em suor. E o futuro tão distante do que poderia ter sido. E a dor tão real como deveria ter sido. A chuva lá fora. E um frio tremendo dentro dela. Falava, falava muito. Sozinha. E então a loucura começou a ser companhia. Chegou de mansinho, fez-se amiga. Ouvia-a, tinha plateia para os berros. Sentia festas no ombro e alguém lhe penteava os cabelos. A chuva. Nunca mais passava lá fora. E o frio adensava-se dentro dela. E o passado e o presente num golpe trágico misturaram-se com o futuro e atraiçoaram-na. Deixou de saber quem era. O que tinha sido. E o que queria ser. Perdeu-se nos berros, nos cabelos desgrenhados e no formigueiro do ombro. Era a chuva. A chuva continuava lá fora. E o frio tinha-a congelado.  

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