Hoje custou. Não sei o que me deu para hoje lá passar. Não sei que designios me fizeram lá ir hoje. A desculpa foi a de sempre. O correio. Tenho que me deslocar 30km para ir a minha casa receber as minhas cartas. Nem o simples fato de receber cartas em meu nome e poder dar-me ao luxo de ir busca-las de chinelo eu posso. Entrei e aquele click excêntrico que o portão faz transportou-me. O silêncio cercou-me (gosto tanto deste silêncio). De repente nada tinha mudado. De repente ouvi o correr seco das patas da minha laika a baterem apressadas no chão em ânsias de nos ver. (Saudades da minha laika) e os olhos humedeceram-se. Imaginei as minhas filhas a correr neste jardim agora repleto de mato. Os escorregas na primavera, a piscina de encher com água gelada no Verão. A subir ao marmeleiro para roubar marmelos no outono e a olhar por aquelas grandes janelas (iam ser) no Inverno. Planeio sempre o quarto delas. Rosa forte, rosa claro. Colchões no chão, muitas almofadas e os brinquedos todos espalhados. Vejo-nos sempre aos dois enroscados no nosso sofá (o mesmo onde hoje em dia dormimos todos agarrados à memória do que significa, do que já fomos). Dói-me olhar e ter saudades da minha casa de bonecas. (Gosto tanto deste silêncio). Venho num ritual mensal buscar o correio. Normalmente nunca passo do portão. Custa-me muito. Não entrava aqui desde que fiz a reportagem para o Diário de Notícias. Não sei o que me deu para hoje lá passar. Hoje custou.
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