terça-feira, 30 de outubro de 2007

Analgésicos...

Desligou o telefone. Inspirou bem fundo, encostando-se para trás deixou-se cair no sofá fechando os olhos. Não conseguia perceber porquê que as forças lhe fugiam, não conseguia entender todos os sintomas porque passava agora o seu corpo. Permitiu-se adormecer, não conseguiria sair dali tão cedo, não enquanto o corpo não recuperasse do terramoto pelo qual tinha passado e a deixasse continuar a sua vida de sempre. Sonhou. Estava no meio da cidade, viu-o ali mesmo ao lado dela, naquela praça onde ele nunca tinha estado com ela, naquele sitio que era tanto dela mas que nunca fora dele. Sentiu-lhe primeiro o cheiro, inspirou e sentiu-se segura, sabia agora que nada de mal lhe poderia acontecer, ele nunca deixaria. Sentiu depois uma mão à procura da sua, juntaram-se as mãos e encontraram-se as almas. Ela não precisava sequer de olhar, mesmo na escuridão reconheceria as mãos dele em qualquer lado, a espécie de choque que acontecia sempre que se tocavam dar-lhe-ia a certeza se ela precisasse, mas não, apenas pela forma como preenchia a sua ela sabia que só poderia ser ele. Sabia o que se seguia. Um encontro de lábios, uma troca de braços, um fechar de olhos para reconhecer o outro. Sabia que mal pudessem, mal deixassem a multidão para trás, se entregariam nos braços um do outro. Sabia que fariam amor, que ficaria deitada nos braços dele já muito depois de o sol desaparecer. Ele brincaria com os cabelos dela, ela desenharia nas costas dele para que ele adivinhasse sentimentos já tão reconhecidos nos olhos de ambos. Sabia que ia ser feliz. Naquela cidade, noutra qualquer. Desde que estivesse assim, nos braços dele. Com o cheiro dele em si.
De repente acordou. O corpo ainda lhe doía. Agora ela sabia, as saudades podem-se traduzir em dores físicas, mas a pior dor estava dentro dela. O telefonema não bastou, naquele momento ela precisava de mais. De muito mais. Precisava dele, ali ao lado dela. E isso fazia-lhe doer a alma. A única dor que não passaria com os medicamentos que viesse a tomar. Os sonhos que tinha com ele sim, eram na verdade os únicos analgésicos com que contava para lhe revitalizar o ser e davam-lhe força para mais um dia. Sem ele. Abraçou-se a si mesma, rodeou-se com os seus próprios braços a fingir que eram os dele. E sentiu. O cheiro dele. Não tinha sido um sonho. Ele estaria ali. Sempre.