quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Respirar*

Está sentada na esplanada. Fecha os olhos e sente o calor da noite. O vento que se faz sentir é quente, aconchega. O som está alto, a música do bar obriga-os a berrar uns para os outros. Respira fundo. Sorri e acena a quem acaba de chegar. O copo em cima da mesa com o gelo a derreter, o cigarro no cinzeiro com a cinza a cair. E ela com os olhos fechados, como se tivesse todo o tempo do mundo. Como se ali com as gargalhadas que ecoam daqueles que mais ama fosse impossível acontecer algo de mal. Está noutro mundo, naquele em que só ela existe e as vozes dos outros são apenas o eco. De repente ele chama-a. O nome dela na boca dele soa sempre a uma melodia doce. "Anda cá, preciso de te dizer uma coisa." E ela sabia o que se seguia. Ele iria rodea-la com os seus braços. Iria dar-lhe um beijo no pescoço, uma mordida na orelha. Iria perguntar-lhe num sussurro "Em que pensas?". E ela iria sorrir-lhe, abraçar-se-iam. E ali naquele olhar só dos dois ela teria a certeza. Era impossível algum mal os atingir. Ela era aquela com quem ele gostava de ficar para sempre. Ele tinha-lhe dito ao ouvido momentos antes. E era nisso em que pensava, e em como tudo de repente lhe parecia simplesmente perfeito. Tanto que começava a ter medo que alguma vez o sentimento inabalável que nada de mal os poderia atingir pudesse algum dia vir a desvanecer-se por completo. "Em nós amor, em como tu vais sofrer por me aturar em velhinha". "Ninguém disse que ia ser fácil, mas eu consigo, nós conseguimos." Ela dá-lhe um beijo. Põe o copo à boca, sente o frio do gelo. Respira fundo e murmura "Pois conseguimos."