(Post longo, de opinião pessoal)
Muito se tem falado, muito se tem escrito, muito se tem discutido sobre o referendo de dia 11 de Fevereiro. Segundo me tenho apercebido, muita gente ainda não percebeu a pergunta que se faz, muita gente não percebe (ou então não quer perceber) "Concorda com a despenalização da Interrupção Voluntária da Gravidez, se realizada, por opção da mulher nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?" com "É a favor do aborto?" É que uma pergunta nada tem a ver com outra.
Enquanto que na primeira voto sim, sim, mil vezes sim, na segunda já voto não. É que ninguém no seu juízo completo é favor do aborto, é a favor de que uma vida seja interrompida.
A minha perspectiva é que se vivêssemos numa utopia, se o mundo fosse perfeito, se a segurança social do nosso país realmente funcionasse, apoiasse a quem de direito, houvessem apoios (reais) para quem não consegue/quer manter um filho, eu seria contra a IVG, mas neste nosso país, em que cada vez há mais casos de crianças maltratadas/abandonadas/abusadas/violadas, em que cada vez há mais crianças nas instituições, em que mais cada vez é mais difícil adoptar estas crianças, quem não quer ter filhos, quem não tem possibilidades de manter uma criança deve ter a opção de pode escolher, quem sou eu para dizer que alguém que não tem possibilidades/condições deve levar uma gravidez não desejada a termo? E depois o que é dessa criança, o que a espera? Maus tratos por parte de pais que nunca os amaram, que nunca os desejaram? Ou então mesmo que sejam dadas para adopção, esperam-lhe anos e anos de instituições, andar de casa em casa de famílias de acolhimento, muitas vezes maus tratos físicos e psicológicos, falta de amor. E eu sei do que falo porque nestes 4 anos do meu curso tive já contacto com esta triste realidade, e com uma assistente social na família conheço a triste realidade de muitas instituições que existem neste pais.
Eu sei, é uma forma fria de ver um assunto que tem milhões de condicionantes, milhões de pontos de vista, milhões de variantes. Depende, de muita coisa, mas no geral, quem recorre ao aborto é porque vê nele a ultima saída, e não depende de nós condenar o que cada um faz da sua vida.
E depois prende-se por uma questão, digamos básica. Já todos sabemos que o aborto ilegal existe, e se o não ganhar, ele não vai deixar de existir, as mulheres vão continuar a abortar, seja aqui em “clínicas de vão-de-escada”, seja em condições na vizinha Espanha.
O factor monetário volta a fazer distinção, quem pode, vai a Espanha, recebe um bom acompanhamento anterior, boas condições sanitárias, bom acompanhamento médico/psicológico posterior, quem não tem dinheiro, sujeita-se a pôr-se nas mãos de qualquer “parteira habilidosa”, num quarto dos fundos qualquer longe de quaisquer condições sépticas de higiene, onde muitas vezes acaba por ir parar às urgências com sequelas gravíssimas.
Nenhuma mulher, NENHUMA usa um aborto como método contraceptivo!! Um aborto é uma mutilação, a mulher precisa de saber o que está a fazer, precisa de acompanhamento, precisa de ser guiada, NENHUMA decide abortar de ânimo livre, não é uma escolha leviana, não é algo que se decida assim na base do “porque sim”, por isso é urgente dar condições a estas mulheres para que o façam com o mínimo de dignidade, e não ainda mais com o pensamento “espero que resulte, que não sangre até à morte, que não vá parar a um hospital e ter que explicar o que fiz, porque fiz, espero que ninguém descubra e eu seja presa.”
Depois surge a questão do pai, mas aqui assumo-me como mulher que sou. Ninguém me pode dizer o que posso ou não fazer com o meu corpo, se eu quiser ter um filho, tenho, se não o quiser não o tenho, sou eu que como mulher o carrego, sou eu que terei que eventualmente que mudar a minha vida perante a vinda da criança, sou eu que irei ter as dores do parto, só eu é que sei. E aqui também falo por experiência própria, aqui à uns anos tive um ex-namorado (namorado na altura) que em conversa sobre “acidentes”, um casal nosso amigo tinha engravidado, me disse que se algum dia nos acontecesse a nós um “azar” desses íamos a Espanha, só lhe disse “Para comprar caramelos não? Também os há cá, sabias?”. Nunca na vida eu iria abortar só porque o meu namorado ou até marido queria. A vida é minha, o corpo é meu, eu é que sei, a ele dou-lhe a opção de me acompanhar ou não nas minhas decisões, se não quiser azar. (tanto na questão de ter como na de não ter). Ter um filho ou não, (no sentido de o parir) só depende da mulher, ao homem cabe a decisão de a acompanhar ou não, de a apoiar ou não, de assumir ou não a paternidade. Por isso não me venham com as cenas do “ah mas também deve ser uma decisão do homem”, claro que sim num mundo perfeito, mas mais uma vez o nosso mundo não é perfeito.
Por outro lado existem as campanhas, confesso que toda a campanha do não me irrita, acho-a descabida, a cair no ridículo até... É que compreendo e respeito quem seja contra a despenalização da IVG, mas os argumentos usados em alguns outdoors espalhados por este país são somente ridículos. Então aquele que diz "Contribuir com os meus impostos para financiar clínicas de aborto? Não obrigado.". O que é aquilo?
E os meus (dos contribuintes) impostos que vão para clínicas de desintoxicação, e os meus imposto que pagam viagens, casas, carros a quem lá está no governo? E os meus impostos que vão servir para pagar anos e anos de institucionalizações por parte dessas crianças de ninguém, que vão pagar contas de hospitais quando elas lá forem parar nas mãos de quem nunca as quis, que vai pagar anos e anos de tribunais quando (finalmente) os pais que nunca as quiseram ou as instituições que as acolheram e as negligenciaram forem felizmente lá parar? Isso é que não!!
O não baseia-se em fotos de abortos mal feitos, em alternativas que uma mãe sem condições pode tomar em vez da IVG, mas digam-me, em quê que eles se preocupam com a criança efectivamente no mundo, assim que é parida, em quê que eles ajudam para ajudar uma mãe a manter/criar/educar o seu filho? A gravidez resulta numa vida. E muitas dessas mães/pais não têm condições de criar um filho, sabem senhores do não, é que não é só pari-los, é preciso alimenta-los, vesti-los, ama-los, cuidar das doenças que surgem, dar-lhes uma boa educação, e isso, hoje em dia dura pelo menos 30 anos!!
Por isso, por uma escolha consciente de que o mundo não é perfeito, eu vou votar SIM, concordo. Porque apesar de eu dificilmente (nunca devemos dizer nunca) ir recorrer a um aborto, não depende de mim julgar o que cada pessoa faz (ou é levada a fazer) das suas vidas.
(Escrito a quente depois de uma discussão, por isso um tanto ou nada confuso)
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