sábado, 9 de abril de 2016

Blurry

Sou viciada em música. Tive a sorte de assistir a imensos concertos de grandes bandas ao vivo. De ir a festivais de música. De ter todos os cd's que pedisse. De ter sido lesta a aprender a sacar mp3 muito antes do YouTube. A música é para mim uma perfeita máquina do tempo, tal como os cheiros tem o poder de me catapultar imediatamente para uma época da minha vida, para uma situação, para um local logo aos primeiros acordes. Há memórias felizes, radiantes, há tristezas, há momentos de total desespero. Há bandas sonoras para quase todo o meu crescimento. Fecho os olhos e ouço os acordes de "I'm a big big girl in a big big world" da Emilia enquanto nos intervalos dava voltas e voltas à escola com o meu grupo de amigas.... De repente volto a ser só uma miúda numas férias de Julho à noite, à beira da piscina a ouvir à exaustão BSB com a minha melhor amiga no Discman. De repente volto a ser eu, a ouvir e a tentar compreender os mp3 que me enviam. De repente volto a ser eu num concerto da minha banda favorita pela primeira vez e de achar que estava a sonhar, de ver Metallica na primeira fila  e achar que tinha atingido o máximo de felicidade que algum dia podia atingir. De no fim de um concerto de Pearl Jam, sozinha num Pavilhão Atlântico cheio, de luzes acesas a ouvir a Yellow Ledbetter e achar que nunca na vida conseguiria explicar aquela energia de milhares de pessoas a cantar em plenos pulmões.... Ponho um álbum a tocar no youtube e vejo-me o meu quarto, sinto o cheiro dos meus incensos, vejo-me deitada na cama na colcha amarela que hoje cobre a nossa cama a ouvir as músicas e a sentir tudo à flor da pele. Hoje ponho os fones, elas dormem ao meu lado... E eu fecho os olhos, som no máximo. Gostava de poder voltar aquela época e dizer-me a mim mesma para não ter tanta pressa. E aproveitar tudo ao máximo. Que foi tanto. O som no máximo não cala as saudades que são tantas... 

https://www.youtube.com/watch?v=4Bc5rQKc4dM&list=PL103B2D68946FF402&index=29

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Custa-me muito

Custam-me muito as ausências. Os dias em que só as vejo de manhã, em que só temos direito a um lusco-fusco de 20 minutos e a pequenas conversas a caminho da escola. Custa-me muito as perguntas certeiras da mais velha: "Estás de folga hoje?" numa ansiedade de saber se a mãe vai estar lá para ela quando sair da escola. Custa-me muito que já me pergunte se vou fazer noite porque "então vais chegar de noite mamã e eu já vou estar a dormir". Custa-me muito saber das coisas da escola pelo alta-voz do carro enquanto o pai as leva para casa, onde perco metade no caos de falarem as duas ao mesmo tempo. Custam-me as chamadas pelo facebok para as acompanhar no jantar, como se o telefone suprisse a falta que a minha presença ali faz. Custa-me os "demoras mamã?" "Já vens mamã?" "despacha-te mamã". Custa-me vê-lo sozinho, a lidar com os berros, os dramas de duas divas, os jantares muitas vezes caóticos, os rituais de deitar, numa equipa desfalcada onde me vejo a braços com falta de comparência, ainda que falta justificada e assinada na caderneta. Custam-me os beijos que lhes dou quando chego e elas já não sentem, o aconchegar de lençóis que já não dão fé e os "amo-te muito, sonhos cor de rosa" que já não me ouvem dizer.

Custam-me imensamente os dias em que sou mãe a part-time. 

terça-feira, 5 de abril de 2016

Maria Inês

05.04.2016 - O dia em que o meu coração ganhou mais uma assoalhada.
Chegaste hoje minha princesa. Já demonstras uma tenacidade e alguma teimosia que de certo te irão dar muito jeito na tua vida que a tia quer que seja longa e muito, muito feliz. Chegaste a uma família um bocadinho doida. Falamos alto, depressa, berramos um bocadinho mas gostamos muito uns dos outros. Nasceste já cheia de sorte. Tens uma mana que te desejou tanto!!! E uma mãe com a qual podes sempre contar e com a qual vais ter que ser muito paciente. E calma para ela se habituar ao facto de ter um bebé no colo e um amor tão grande no coração. E um pai que tenho a certeza que nem vai saber o que fazer com tanto amor por ti. Tens esta tia que vibrou e se emocionou quando te pegou ao colo pela primeira vez. Tens um tio que não podia estar mais babado por teres nascido no mês dele e cujos olhos brilharam assim que lhe mostrei as tuas primeiras fotografias e que quase literalmente correu para te pegar primeiro que eu ao colo. E tens duas primas que andaram à luta para ser a tua prima mais velha para tomar conta de ti e que mesmo sem perceberem muito bem onde estavas, como estavas e como chegaste só te querem em casa delas para te dar miminhos e brincarem contigo....

Estávamos todos à tua espera meu amor. Sê bem-vinda Inês. Que a vida te sorria sempre. Nós cá estaremos para te ajudar, sempre! Esta tia já te ama muito!!! 

quinta-feira, 24 de março de 2016

Silêncio

Silêncio. Nada dói mais que o silêncio. De uma casa vazia que já esteve cheia. De gargalhadas que já não se ouvem mais. De conversas tidas em tom de surdina noites dentro. O silêncio é confortável. Manso como um amigo de longa data. Abraça-te, conforta-te. Fechas os olhos, abres e o silêncio é o único que fica. Tudo desalinhado, papéis amarrotados na memória, palavras gravadas no peito ditas com o coração. E o silêncio que se junta com o peso do que não foi dito.

Senta-te. Fecha os olhos. Procura dentro de ti o que precisas de guardar. Vasculha na cabeça o que te aperta o coração. Fecha os olhos, ouve música. E aprende a esperar. E não deixes que o silêncio te conforte nunca. Usa-o sem nunca te habituares à sua presença, um dia queres abrir as janelas, queres escancarar uma porta e ele não deixa. Estás enredado em ti mesmo, preso a ti mesmo. Senta-te, fecha os olhos e ouve música. Arruma tudo o que queres guardar, grita tudo o que queres largar. Quebra o teu silêncio.

segunda-feira, 21 de março de 2016

Olhar(es)

Eu e a Leonor arrumamos a cozinha. O pai desceu para continuar a trabalhar, a Lara pisgou-se de fininho para a sala quando me entregou a taça vazia da fruta. No fim, peço-lhe para arrumar a cadeira da irmã, dou-lhe um abraço, um beijinho e agradeço-lhe a ajuda. "Pfffff mamã nós é que tivemos de arrumar tudo! O pai e a Lara não fizeram nada!!" Digo-lhe que tem razão, mas que o pai teve mesmo que ir acabar um trabalho e que amanhã arruma ele com a mana e nós descansamos. "Deixa lá mamã, eles têm olhos castanhos são preguiçosos, nós de olho azul somos mais lindas e trabalhadoras!!