segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Outubro Mês da prevenção. Porque não acontece só aos outros.

Sei exactamente onde me foi dada a notícia. Sei o que ia fazer,  para onde ia e o que vestia. Lembro-me sobretudo do silêncio do telefone mudo dos dois lados.  E do frio do medo. Afinal não acontece só aos outros. Merda. Tinha acabado de nos acontecer a nós. Lembro-me da calma dela a dar a notícia. E do furacão da minha irmã quando chegou a vez dela de saber.  Merda. E agora?
Todo o processo foi levado com a força que eu sempre soube que ela tinha. E com uma coragem que só lhe conseguia imaginar. O corte de cabelo.  Curto. A queda do cabelo. Lenços. Quimioterapia e um sorriso nos lábios. Sei que teve muito medo, que se sentiu derrotada, que chorou atraiçoada pela vida, mas também sei que nunca o demonstrou. Por nós. Porque nós estivemos sempre em primeiro lugar.
O único impacto que tive foi numa manhã que apareci de surpresa e a vi a acordar. O ar pesado, os ombros curvados, a cabeça careca e um olhar triste. E ali enquanto me sentia como se tivesse acabado de levar uma tareia, admirei-a mais. A minha mãe era uma lutadora. Todos os dias contrariava a doença e maquilhava-se, arranjava-se e não se entregava à sua condição de doente oncológica. Por nós,  para não lhe sentirmos a dor, pelo meu pai, para não lhe ver a preocupação estampada no rosto e por ela para lutar com todas as suas armas contra o filho da puta do cancro de mama. Não acontece só aos outros. Nem vem em carta registada com aviso de recepção. Aparece. Instala-se. Mata. A minha mãe tem vindo a lutar. Tem-lhe ganho todas as batalhas, com um sorriso nos lábios e determinação na alma. Eu ganhei o vício de a abraçar mais e de lhe dizer que gosto dela. Porque não acontece só aos outros. Aconteceu-nos q nós.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Dores de crescimento

Filha,

Hoje foi o teu primeiro dia de escola. Numa escola a sério, cheia de meninos e meninas e tu ias tão contente! Sabes, crescer dói. É muito bom, sabem bem as conquistas que vamos tendo, mas custa e é penoso. E para mim é uma sensação agridoce ver-te a conquistar o teu lugar no mundo. Já não sou a única a sentir-te na minha barriga, já não me cabes só num braço. Pego em ti e apesar de o meu colo esticar sempre que for preciso acolher-te a verdade é que sobram braços e pernas quando te levo adormecida para a cama. Não és minha, és do mundo. E a mim custa-me um bocadinho ver-te crescer. Entraste na sala toda confiante, pousaste a mochila, foste logo brincar, mas choraste quando me vim embora. Sosseguei-te a dizer que te vinha buscar, venho sempre meu amor. Depois voltei lá horas mais tarde para escondida ver como estavas, e filha que orgulho, brincavas e rias com os meninos e o meu coração de mãe de uma eterna bebé rebentou de orgulho. És do mundo e és feliz. À noite na cama, naquele momento só nosso contaste tudo. O que comeste ("melancia mãe!") com quem brincaste, ("a Sara é minha amiga!") e o que fizeste e perguntaste se amanhã ias outra vez. Vais filha, a escola é importante para crescer, para te ensinar, para te fazer ver que o mundo é um sitio às vezes nada fácil de estar mas que vale a pena. Hoje voaste um bocadinho sozinha. E voaste tão bem meu amor!

quarta-feira, 19 de março de 2014

Feliz dia do Pai.

Dizem que está na bioquímica do ser humano.  Feromonas e coisas que tal. Dizem que por toda a biologia há provas que é assim mesmo que funciona.  A fêmea escolhe o seu macho mediante a sua capacidade de se reproduzir.  De romântico isto não tem nada. Não sei porque foi que o escolhi mas se assim foi agradeço à bioquímica que me fez nota-lo e que o fez retribuir. A verdade é que o escolhi. Se calhar a bioquímica até nem é para aqui chamada e foi o destino. Talvez a única coisa onde o destino me foi favorável. Não sei. A verdade é que aquele miúdo foi primeiro namorado, depois marido e agora é pai. E apesar de torcer o nariz quando é para dar sopas é o único que lhes consegue dar a volta nos dias dos "não quero!", apesar de revirar os olhos se é para ajudar nos banhos, a verdade é que transforma aquela hora num rol de brincadeiras em que há sempre vontade para "só mais um megulho!". Na verdade não trocou fraldas (ou contam-se pelos dedos de UMA mão as vezes que o fez), mas tem uma paciência desmedida para acalmar choros a meio da noite. Na verdade nunca fez uma sopa (e acho que as filhas lhe agradecem tal) mas transporta-as às cavalitas e transforma um simples atravessar de rua numa aventura. Nem sempre tem paciência ao fim do dia para brincar às casinhas ou às cozinhas com elas mas para sessões de mimo é sempre o primeiro a chegar. Não sei porque o escolhi. Continuo a dizer que foi porque me faz(ia) rir como ninguém e por ter o coração gigante que tem. Agradeço todos os dias ter o meu espaço nesse coração gigante dele. E que ele ame como ninguém as duas metades que nasceram de um amor maior.
(Feliz dia do Pai meu amor. E um beijo enorme apesar de seres pai e de vibrares com elas, ser um dia triste para ti.)

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Do não querer esquecer

Não quero nunca esquecer o vosso cheirinho a acordar. O vosso sorriso quando acordam e se abraçam e gritam uma com a outra. Os beijos seguidos de berros e choros. As vossas disputas pelo mesmo boneco quando há mais 350 espalhados pela sala. O teu sorriso doce Lara, e o teu sorriso safado Leonor.
Minha amorinha,
Não quero esquecer nunca, a forma como encostas a cabeça e esfregas os olhos e agarras o teu doudou quando tens sono. A forma como pego em ti a dormir e te fico ali a respirar aquele odor tão teu, tão doce, tão ainda bebé. A alegria e o amor espelhado nos teus olhos quando vês a tua irmã, como a segues para todo o lado e tentas entrar (arruinando) as brincadeiras dela. A tua independência, a tua teimosia, o facto de chorares lágrimas gordas quando ficas sentida e fazeres o beicinho mais fofo da história quando não consegues o que queres. A tua boa- disposição quando acordas religiosamente para o biberão da 00.30. O facto de nunca acordares a chorar, o facto de raramente chorares, mas quando o fazes levas a família toda à loucura com semelhante som e trinidos estridentes. O teu sorriso doce Lara, é capaz de me iluminar no dia mais negra. És a luz da minha vida.
Com a rapidez dos dias e a pressa que o quotidiano tem em acontecer há pequenos pormenores que não quero nunca deixar cair em esquecimento. Vocês crescem a uma velocidade estonteante e muitas vezes dou por mim a olhar para cada uma e a pensar quando é que vocês se tornaram assim, cada vez mais meninas, mas sempre as minhas bebés.
Minha pipoca,
Não quero esquecer nunca a forma única como chamas a mana "Larinha!!" com aquela entoação só tua. Os teus abraços brutos e muitas vezes perigosos à Lara que só por sorte ainda não lhe arrancaram a cabeça. A nossa eterna brincadeira no carro "mãe?" "Filha?" "mãe?" "Filha? " "Mãeeee" "Filhaaaa". A tua doçura rebelde. A tua curiosidade nata e a tua rapidez de aprendizagem. Um orgulho minha bebé. Às vezes acho que te mimo demais para te compensar de teres perdido o estatuto de filha única tão depressa. Mas sei também que com isso te dei a melhor prenda que podia, é um amor único ver-te como irmã mais velha. A forma como a abraças, como a ensinas, como queres brincar com ela. É única a forma como olhas para nós e a simplicidade com que nos transmites o amor que nos tens. Nunca percas essa transparência filha. E cresce devagarinho minha pipoca grande!

Com amor, 

Mãe

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Amorinha

Escuto-te a respiração ofegante. Beijo-te o cabelo. Cheiro-te o pescoço. (Reconheceria o teu cheiro no meio de mil) Amo-te mais. Dolorosamente mais todos os dias. Um amor sufocante que me tira o ar por ser tão grande. Por ser maior. Aconchego-te no meu colo e protejo-te o sono. Mesmo doente és um doce de menina. Em ponto de rebuçado derreto-me só de olhar para a tua calma mesmo no meio da confusão. Digo muitas vezes que és o nosso açúcar e que trouxeste doçura à nossa vida. Melhora rápido meu amor. E vamos para casa encher o ar com cheiro a bolos...