"Filipa, desce daí que vais cair!"
"Deixa a menina!"
Era quase sempre assim em casa da avó Céu. Neta mais velha, única durante uns bons anos, tinha direito a fazer tudo. A minha avó tinha uma paciência de santa e fazia de uma semana de férias em casa deles um teatro de brincadeiras. A minha avó não sabia ler nem escrever mas tão depressa era dona de uma mercearia " ó dona miquinhas quero um quilo de arroz se faz favor ", como era médica de um grande hospital " ó senhora doutora tenho aqui uma dor de ouvidos". E a semana passava entre mercearias, hospitais, escolas e farmácias... O meu avô, mais antigo e recatado deixava-me fazer o impensável aos olhos dos filhos e enchia-me de bolachas quando lá íamos! Eram a minha avó Céu e o meu avô Mundo. E fazem-me uma falta desgraçada.
Falar na minha avó Maria (que nunca teve Maria no nome e se chzmava Joaquina) é faltar-me o ar enquanto escrevo. A minha avó Maria era a chefe de todos nós. Comandava os filhos e os netos com um capitão comanda o seu navio. De pulso firme mas de um amor desmedido. Da minha avó sinto falta de tudo. Do berro mais alto a pôr-nos na linha, do dinheiro dado às escondidas como um segredo só nosso, da gargalhada ruidosa que enchia uma sala, das batatas "à inglesa" cortadas finamente sem compara com quaisquer outras, da aletria e das rabanadas no Natal. Dos rissóis, da cabidela. Do amor transformado em comida. "Come filha, ainda não comeste nada!" e enchia pela 3a vez o prato... Da minha avó Maria não consigo quantificar as saudades. Há pessoas que deviam ser eternas. A minha avó Maria era uma delas. ♡
(Ao meu avô Álvaro já lhe dei os beijos todos que tinha a dar e os mimos todos qur tinha para lhe dizer. Quando eles estão cá é tudo tão mais fácil e nós nem damos conta! )