sábado, 12 de dezembro de 2009

Sem Sentido

O ser humano é um queixinhas inato. Queixamo-nos porque está frio, queixamo-nos porque está quente, queixamo-nos porque não temos tempo para nada, queixamo-nos porque não temos nada para fazer. Queixamo-nos que não temos dinheiro, que estamos gordos, que a gasolina está cara, que não temos férias, que não avançamos. A vida passa-se a sim, nós a queixarmo-nos e o tempo a passar. E depois atinge-nos.
Acontece uma tragédia e deixamos de fazer sentido, fazer queixa já não tem qualquer impacto, percebemos ali naquele exacto que tudo o que nos queixamos é secundário, tem solução, tem uma saída. E o mundo pára. A morte que nos caiu em cima não nos deixa espaço para saídas, não existem.
E depois é uma dor que nos cerca como um nevoeiro e não nos deixa respirar, faltam-nos as forças nas pernas e apesar de estarmos a repetir pela milionésima vez "isto é um pesadelo", na milionésima primeira vez ainda não nos soa a verdadeiro. Aconteceu. E revivemos os momentos antecedentes até à exaustão, e os momentos em que as coisas que ainda faziam sentido e estávamo todos, e a inevitabilidade de que nunca mais vamos ouvir, ver, sentir aquela pessoa cai-nos nas costas e esmaga-nos o peito. E dói. Parece irreal.
E vemos que o mundo continua, imune ao que se passou, nada mudou, nada se alterou, as pessoas continuam nas suas vidas, e nós com aquela tragédia que não nos cabe no coração e sem respostas que nos confortem um bocadinho a alma. E depois é o futuro que nos chega inevitavelmente mais cedo com as coisas que vão agora acontecer sem ele do nosso lado. E é o passado a fazer doer mais um bocadinho pelas lembranças que nos vão sobressaltando o corpo.
O meu sogro faleceu, assim de repente, sem que nada fizesse prever este desfecho. E de todas as mortes com que já tive que lidar, em nenhuma me foi tão dificil aceitar o facto de que nunca mais o vou ver. É um pesadelo. Os sonhos ficam de lado, as queixas de sempre perdem o sentido. A minha melhor metade estilhaçou-se no chão e nunca mais vai ser o mesmo. Perdeu o pilar dele, a pessoa que para o bem e para o mal estava do lado dele incondicionalmente, a pessoa que mais o amava neste mundo, ganhou uma estrela guia. E eu entendendo a dor que lhe trespassa ainda o coração só espero saber acompanha-lo e dar-lhe todo o apoio que ele necessitar, hoje e sempre. Quando achamos que a vida já não nos pode negar mais nada, vem o destino e deixa-nos sem chão.